Queridos papai e mamãe

Se o candidato a filho pudesse falar aos seus futuros pais, numa triagem no céu, certamente diria algo parecido com isso, antes de nascer:

– Papais, não me tragam ao mundo se vocês não sabem direito se me querem; eu darei trabalho e se sua vida for confusa e sem direção vocês não saberão o que fazer comigo e certamente eu ficarei meio desajustado.

– Se vocês não são felizes juntos, eu não posso dar a vocês a cumplicidade que nunca tiveram e as coisas só vão piorar. Não ponham nos meus ombros o peso de uma vida a dois que já não dava certo antes. Eu não farei nenhum milagre; eu só saberei chorar, mamar, arrotar, fazer cocô, xixi e acordá-los na madrugada.

– Eu terei minha própria história, não queiram para mim o que frustraram em suas vidas; isso vai me sufocar de um jeito que vocês não podem imaginar e certamente eu serei infeliz e frustrado também.

– Saibam que eu serei único, e respeitem o que eu sou, a minha subjetividade. Respeitem meu espaço, meu tempo de aprender. Não queiram competir com os outros: eu vou andar, falar, aprender e me desenvolver no meu tempo. Não fiquem buscando transtornos para mim o tempo todo.

– Os primeiros a me dizerem se o mundo é bom serão vocês, por isso, não sustentem um casamento em que se agridam física ou verbalmente por que acham que é o melhor pra mim. Não gritem comigo, descontando suas vidas agitadas, não olhem pra mim como se eu fosse um peso, eu só estou aqui porque vocês quiseram ou permitiram;

– Vocês podem ter me desejado muito, mas não queiram desejar tudo na minha vida. Deixem-me escolher também: errar e acertar fazem parte do meu crescimento e eu só vou amadurecer desta forma. Isto inclui aquela ou aquele futuro namorado que você poderá detestar ou o amigo de que vocês não gostam, mas que é o meu melhor. Ensinem-me sobre a vida, mas não queiram viver a minha mais do que eu.

– Sentem comigo, conversem, contem histórias, parábolas, piadas, falem-me sobre a vida, o que ela tem de bom e de ruim, pois é disso que eu lembrarei quando estiver no meio de uma encruzilhada e precisar decidir pra onde ir… Eu só preciso me sentir amado e seguro ao lado de vocês, isso será o suficiente para eu seja seguro na vida sem que vocês tomem as rédeas que são minhas.

– Eu preciso de um lar, um lar onde eu queira estar, chegar, me sentir bem, pois se a minha casa é uma confusão, dentro de mim ela também se instalará e vocês vão se perguntar porque eu sou tão ansioso, agressivo e agitado. Não preciso que vocês me batam como gente grande, isso só reforçará minha violência e pode ser que um dia eu revide, pois são vocês que estão me ensinando a resolver as coisas desta forma.

– Nunca desvalorizem os meus sentimentos, isso me fere a alma e, a partir disso, eu concluo que vocês não servem para serem meus amigos, pois a todo momento não se importam e desqualificam meus sentimentos. Aquelas velhas frases: “para de bobeira, menino(a)”, “isso é bobagem da sua cabeça”, “isso é falta do que fazer”, “namorado é meu chinelo” acabam com qualquer relação de amizade com os pais.

– Por fim, mamãe e papai, não desejem que eu supra suas carências afetivas. Não me coloquem no meio de uma batalha emocional, não venham me contar que um ou outro não prestam ou não ligam pra mim, pois com a minha tenra idade eu não vou entender, senão que eu não sou bem vindo, que eu não sou amado e que eu só nasci para atrapalhar. Tem momentos em que vocês, sem perceber, trocam de papéis comigo, mas não façam isso. Eu sou só o filho de vocês e tem coisas que vocês vão me dizer porque querem atingir ao outro e não porque querem meu bem. Quando vocês pensarem em fazer isso, lembrem-se de que eu tenho um coração e que nele estarão guardados para toda a vida estes registros que vocês me trazem e que pode ser que eles fiquem aqui para sempre.

E agora, como psicóloga, eu digo a vocês, pais: busquem amar e compreender seus filhos antes que a droga os encontre para anestesiar de forma destrutiva tudo aquilo que eles desejam esquecer e fugir. E, neste mundo, nem sempre há uma segunda chance!

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