Todo dia tem que ser o último!

Quando a gente passa pelo medo da morte de alguém muito próximo é que refletimos e, às vezes, sofremos pelo amor que não foi dado, pela companhia que não foi feita e pela palavra que nunca foi dita.

Desde criança, eu sempre ouvi minha mãe dizendo repetidas vezes quando éramos malcriados: “Quando eu morrer não adianta ir chorar no meu caixão, não!” e agregado a isso sempre vivi a agonia de ouvir que meu pai “quase morrera na noite passada” e é assim até hoje…

Talvez estas experiências tenham-me feito agir como se nunca fosse dar tempo, e por isso eu procuro viver meus afetos com intensidade e, na última perda que sofri, eu pude olhar para minha amiga e pensar: “Dani, eu fiz e disse tudo que poderia, você parte tendo a certeza que te amei até o fim”. Foi assim também como o Padre Carlos e espero que seja assim até seja eu a partir.

A gente tende a focar e a viver em função do que não teve, do que poderia ter sido, das frustrações das nossas expectativas não correspondidas e nos esquecemos do hoje. Mas, se é pra olhar pra trás, veja se você também não se esqueceu de perceberque nunca disse qual era a sua necessidade e que passou o tempo todo esperando o outro adivinhar que o amor oferecido não era como você desejava e que não era o suficiente; não esqueça de olhar pra trás e ver que talvez você tenha retribuído a falta de afeto com mais agressividade e rejeição, aumentando ainda mais a distância… Também não se esqueça de perceber que você nunca ouviu, mas também nunca disse que amava…

Ao olhar pra trás, não se exclua, não se isente, pois o relacionamento é uma via de mão dupla e na maioria das vezes aquele que não te deu o que era suficiente, também não teve!

Arrisque-se em amar mesmo que em princípio não haja reciprocidade na medida certa. De repente, você vai se surpreender em saber que é o primeiro na vida daquela pessoa que verdadeiramente o amou.

A gente tem tanta facilidade em ofender e deixa presas na garganta palavras de carinho. Diga que ama, diga que sente saudades, diga que quer um abraço, deite no colo, dê-se a oportunidade de amar e ser amado e não passe o resto de sua vida pensando em como poderia ter sido.

Pode ser que, olhando o seu hoje, você se perceba meio sem jeito pra demonstrar o amor que sente, e se pegue falhando nas tentativas e fazendo o contrário do que gostaria. Daí você será plenamente capaz de entender que amar não é tão fácil quanto parecia e seu coração será agraciado com a leveza que este aprendizado traz. A partir daí será mais capaz de aproveitar o amor que recebe, entendendo que é sempre como o outro pode dar e que este amor pode não ser compatível com suas expectativas, mas que, mesmo assim, continua sendo amor.

Talvez eu também não ame na medida certa no ponto de vista do outro, mas é como eu posso, é como eu sei e, só de ser assim, já me deixa com o coração em paz, já me faz achar que não deixei para o amanhã que não conseguiu chegar.

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